Maturidade digital dos pequenos negócios cresce 10%, diz Sebrae
Pesquisa com 7.182 empresas mostra que 60% dos pequenos negócios já são “emergentes” no digital — mas cooperação para inovar segue no ponto mais baixo.
A maturidade digital das micro e pequenas empresas brasileiras avançou de forma expressiva nos últimos dois anos. É o que mostra a pesquisa Maturidade Digital dos Pequenos Negócios 2026, realizada pelo Sebrae em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). O Índice de Maturidade Digital (IMD) dos pequenos negócios chegou a 39 pontos em uma escala que vai de 0 a 80 — um crescimento de 10% em relação a 2024, quando o indicador registrava 35 pontos.
O levantamento, aplicado por telefone entre 20 de julho e 21 de agosto de 2026, ouviu 7.182 empreendedores de todo o país, com margem de erro de 1,16 ponto percentual para um intervalo de confiança de 95%. Os resultados foram ponderados por unidades da federação, porte e setor.
A leitura central do estudo é ambígua e, por isso mesmo, importante: a base digital dos pequenos negócios brasileiros se consolidou — a chamada “baixa maturidade” praticamente desapareceu —, mas a grande maioria das empresas ainda está longe de usar a tecnologia como vantagem competitiva.
O que é o IMD e como foi medido
O IMD indica o potencial de uma empresa de extrair benefícios do uso de recursos digitais. A metodologia, desenvolvida pela parceria ABDI/Sebrae, aplica 20 perguntas organizadas em seis objetivos: conectar e engajar clientes; estabelecer novas bases de competição; construir uma organização orientada a dados; inovar mais rápido e colaborativamente; gerar mais valor para o cliente; e tecnologias habilitadoras.
Cada pergunta é respondida em uma escala de 0 a 4, o que resulta em uma pontuação total de 0 a 80 pontos. Entre as perguntas estão questões concretas do cotidiano empresarial: se a empresa tem um plano estratégico de mídias sociais escrito e em uso, se vende por plataformas digitais ou comércio eletrônico próprio, se coleta dados de clientes em cada contato, se oferece cursos on-line para treinamento e se mantém rotina formal de backups de sistemas e bases de dados.
A amostra de 2026 entrevistou 3.515 microempreendedores individuais (MEI), 2.756 microempresas (ME) e 911 empresas de pequeno porte (EPP), distribuídos entre comércio, serviços e indústria, segundo o relatório completo.
Os quatro grupos de maturidade
Ao dividir os pequenos negócios em quatro quadrantes, a pesquisa mostra um deslocamento claro da curva para cima entre 2024 e 2026:
| Grupo | 2024 | 2026 |
|—|—|—|
| Iniciantes | 17% | 2% |
| Emergentes | 44% | 60% |
| Intermediários | 35% | 31% |
| Líderes digitais | 5% | 9% |
!Ilustração dos quadrantes de maturidade digital
Em outras palavras: praticamente não existe mais um “exército de desconectados” entre os pequenos negócios brasileiros. O grupo dos emergentes — empresas que já usam ferramentas digitais, mas ainda de forma básica — concentrou 60% do universo em 2026. A faixa de pontos mais frequente é a de 30 a 40 pontos (34% do total), e cerca de 80% das empresas estão entre 20 e 50 pontos.
O que separa esse bloco majoritário dos 9% de líderes digitais não é acesso à internet: é o uso estratégico de dados e a capacidade de inovar em parceria.
Quem avança mais rápido
O crescimento do IMD foi puxado pelos microempreendedores individuais. Entre 2024 e 2026, o indicador dos MEI cresceu 12% — a maior expansão relativa entre os portes —, enquanto as EPP avançaram 10% e as ME, 6%.
Mesmo assim, a hierarquia por porte se mantém: as EPP apresentaram a maior pontuação média em 2026 (46 pontos), seguidas pelas ME (43) e pelos MEI (35). A diferença é mais acentuada justamente nos itens que exigem estrutura: nas tecnologias habilitadoras, as EPP pontuam 49% acima dos MEI; na orientação a dados, 38% acima.
Na análise por setor, o comércio lidera com 40 pontos, seguido de perto pelos serviços (39) — que foram o setor de maior crescimento relativo, com expansão de 12% em dois anos — e pela indústria (35). Por região, Sul e Sudeste lideram com 39 pontos, e o Sudeste foi a região que mais cresceu no período (+13%).
O perfil do empreendedor também pesa: negócios conduzidos por pessoas com maior escolaridade e por empreendedores de até 34 anos apresentam os maiores IMDs, segundo o relatório.
Os pontos fracos que travam o salto
A parte mais reveladora da pesquisa está nos itens de menor pontuação. O objetivo “estabelecer novas bases de competição” — que reúne venda por plataformas digitais e sistemas integrados de gestão — foi o de pior avaliação entre os seis, com média de 1,8 ponto em uma escala de 0 a 4.
No recorte item a item, dois resultados se destacam pelo lado negativo:
- Desenvolver novos produtos ou serviços em cooperação com outras instituições é o item com pior resultado (1,4 ponto em 2026). A inovação aberta — construir produtos junto com startups, centros tecnológicos ou outras empresas — segue como exceção, não como prática.
- Vender por plataformas digitais permanece como o segundo item pior avaliado (1,5 ponto), o que indica que boa parte dos pequenos negócios ainda não transformou presença digital em canal de vendas estruturado.
No polo oposto, a internet de alta velocidade segue como o item de maior pontuação (2,8), embora seja o único que recuou em relação a 2024 (3,2). Já a participação dos funcionários com sugestões foi o item que mais cresceu, saltando de 0,9 para 2,4 pontos — o segundo melhor resultado geral.
Um dado de contexto ajuda a dimensionar o desafio: a adoção de inteligência artificial nas empresas brasileiras chegou a 17% em 2025, e a 15% entre as pequenas empresas, segundo a pesquisa TIC Empresas 2025, do Cetic.br/NIC.br — contra 50% nas grandes companhias. A infraestrutura digital, portanto, avançou; a transformação de tecnologia em inovação e receita é que segue desigual.
O que fazer a partir de hoje
O próprio relatório deixa um roteiro curto para o gestor que quer subir de quadrante. As recomendações práticas destacadas pelo Sebrae são:
- formalizar um plano de mídias sociais escrito e em uso;
- usar o histórico de compras e interesses dos clientes para diferenciar produtos e serviços;
- registrar dados dos clientes em cada contato realizado;
- levar informações extraídas de sistemas e aplicativos para as reuniões de decisão;
- fazer treinamentos periódicos para melhorar a coleta e o uso de dados de clientes;
- monitorar as mídias digitais para entender o que os clientes pensam sobre o negócio.
Nenhum desses itens exige investimento elevado — exigem método. O próprio estudo mostra que a diferença entre coletar dados e usá-los é pequena quando o hábito existe: o desafio, como resume o relatório, é instalar o primeiro hábito — formalizar o que o cliente diz.
Com 80% dos pequenos negócios concentrados entre 20 e 50 pontos e apenas 9% no grupo de líderes digitais, a disputa dos próximos anos tende a ser menos sobre quem tem acesso à tecnologia e mais sobre quem consegue transformar conexão em dado, dado em decisão e decisão em valor para o cliente.
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