Franquias crescem 9,7% e já cobrem 70% dos municípios

Franquias crescem 9,7% e já cobrem 70% dos municípios do Brasil

O setor de franquias brasileiro segue em expansão mesmo em um cenário de juros altos e crédito restrito. Segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF), as redes faturaram 149 bilhões de reais no primeiro semestre de 2026, alta nominal de 9,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ao mesmo tempo, o setor ampliou sua presença territorial e já alcança cerca de 70% dos municípios brasileiros, contra 61% em 2024.

No segundo trimestre, o faturamento foi de 76,3 bilhões de reais, com crescimento de 9,3% — ritmo levemente inferior ao do primeiro trimestre, quando a alta havia sido de 10,1%. Ao fim de junho, o país contava com 207,2 mil operações de franquias em funcionamento.

O setor faturou R$ 149 bilhões no primeiro semestre

O desempenho confirma a resiliência do modelo de franchising, que vem crescendo em torno de 10% ao ano. Em 2025, o setor alcançou o maior faturamento de sua história: 301,7 bilhões de reais, avanço nominal de 10,5% sobre 2024, com 202,4 mil unidades e 1,76 milhão de empregos diretos, segundo a pesquisa anual da ABF.

Para 2026, a entidade projeta crescimento nominal entre 8% e 10%. O resultado do primeiro semestre — 9,7% — está na metade superior dessa faixa, embora a desaceleração do segundo trimestre (9,3% contra 10,1% no primeiro) mostre que o consumo perdeu parte da força no início do segundo semestre.

A leitura da própria ABF é de cautela: juros elevados, restrição de crédito, inflação e endividamento das famílias seguem pressionando o bolso do consumidor. Ainda assim, todos os segmentos monitorados pela entidade cresceram no período.

Interior e cidades médias são a nova fronteira

O dado mais relevante do ciclo atual não é financeiro, mas geográfico: as franquias já estão presentes em cerca de sete em cada dez municípios brasileiros. A expansão para o interior e para cidades médias vem se acelerando desde 2024, impulsionada por custos de ponto menores, menor concorrência direta e o crescimento do consumo fora das capitais.

Para o empreendedor, esse movimento tem duas consequências práticas. A primeira é que as redes estão mais abertas a negociar unidades em praças menores, inclusive com formatos compactos e modelos de operação simplificados. A segunda é que a concorrência por territórios promissores tende a aumentar — quanto mais cedo um mercado interiorano é ocupado por uma rede consolidada, menor a janela de oportunidade para quem chega depois.

É importante distinguir, porém, presença territorial de rentabilidade. A expansão para o interior reduz o custo de instalação, mas também pode significar mercados menores, com fluxo de clientes mais sensível a preço e sazonalidade. O estudo de demanda local, portanto, pesa ainda mais do que nas capitais.

Expansão das franquias pelo interior do Brasil

Os segmentos que mais crescem

Três segmentos lideraram o crescimento do faturamento no segundo trimestre de 2026, todos acima da média geral de 9,3%:

  • Limpeza e conservação: +17,6%. O avanço das terceirizações nas empresas e a demanda doméstica por serviços recorrentes sustentam o segmento há vários trimestres.
  • Saúde, beleza e bem-estar: +15,2%. O envelhecimento da população e a valorização do autocuidado mantêm a demanda aquecida, com destaque para clínicas especializadas e serviços de conveniência.
  • Alimentação — food service: +13,7%. A alimentação fora do lar segue em alta, com formatos que unem ticket acessível e operação enxuta.

A concentração em serviços tem uma explicação estrutural: negócios de serviço costumam exigir menos capital inicial do que redes de alimentação ou varejo, o que os torna mais compatíveis com um cenário de crédito caro. Para o investidor, isso significa que a fronteira de crescimento do setor está menos em grandes lojas e mais em operações leves e especializadas.

O que avaliar antes de comprar uma franquia

Os números favoráveis do setor não eliminam o risco individual de cada negócio. Especialistas em franchising recomendam uma análise rigorosa antes de assinar o contrato. Os pontos essenciais:

  1. Exija a Circular de Oferta de Franquia (COF). Obrigatória pela Lei 13.966/2019, a Lei de Franquias, ela deve trazer todas as informações essenciais da rede: histórico, balanços, processos judiciais, taxas, investimentos estimados e lista de franqueados. A entrega ocorre pelo menos dez dias antes da assinatura — leia com calma e guarde o documento.
  2. Converse com franqueados atuais e desligados. A própria COF lista os contatos. Pergunte sobre faturamento real, prazo de retorno, qualidade do suporte da franqueadora e surpresas do dia a dia. Desligados tendem a ser mais francos.
  3. Entenda todas as taxas. Taxa inicial de franquia, royalties, fundo de propaganda, compras obrigatórias e reformas programadas compõem o custo real do negócio. Some tudo antes de comparar opções.
  4. Verifique o ponto comercial. Para operações físicas, a viabilidade do endereço — fluxo, estacionamento, concorrência no raio de atuação — pode decidir o resultado. Avalie quem arca com a busca e os custos do ponto.
  5. Analise o estudo financeiro com rigor. Desconfie de promessas de retorno rápido. Refaça as contas com cenários conservadores: faturamento 20% abaixo do projetado e prazo de retorno 30% maior.
  6. Confira a saúde da franqueadora. Processos judiciais, reclamações em órgãos de defesa do consumidor e histórico de fechamento de unidades são sinais de alerta que constam na documentação da rede.

Perspectivas para o segundo semestre

A projeção da ABF de crescimento entre 8% e 10% para 2026 depende de dois fatores fora do controle das redes: a trajetória dos juros e o comportamento do consumo. O Banco Central reduziu a taxa Selic para 13,75% ao ano em setembro, o quinto corte seguido, e parte dos analistas aposta em novos cortes até o fim do ano — o que, no médio prazo, alivia o custo do crédito usado tanto pela expansão das redes quanto pelo financiamento de novos franqueados.

Para quem avalia entrar no setor, o momento combina um mercado em expansão territorial com condições de crédito ainda caras. A recomendação prática é a de sempre, mas com mais peso em 2026: priorize redes com histórico comprovado, segmentos em crescimento — como os três que lideraram o segundo trimestre — e praças onde a presença das grandes redes ainda está se formando.

Os próximos números setoriais, referentes ao terceiro trimestre, devem ser divulgados no fim do ano e indicarão se a desaceleração do segundo trimestre foi um ajuste pontual ou o início de um arrefecimento do ciclo.


Fontes: ABF — Pesquisa de Desempenho do Franchising · ABF — 1º trimestre de 2026 · Economic News Brasil · Diário do Nordeste · Brasil 247 · UOL Economia — Selic

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