Adoção de IA atinge 95% das empresas no Brasil, diz Bain

A adoção de inteligência artificial nas empresas brasileiras chegou a 95%, segundo levantamento da consultoria Bain & Company divulgado em setembro de 2026. O número representa um salto de 21 pontos percentuais em relação à pesquisa anterior, feita em 2024, e confirma uma mudança de fase: a IA deixou de ser tema de experimentação isolada para se tornar prioridade estratégica nos conselhos de administração do país.

Mas o mesmo estudo mostra que a maior parte das empresas ainda não transformou essa adoção em resultado. Apenas cerca de 40% das companhias escalaram ao menos um caso de uso, e os gargalos apontados pelos próprios executivos não estão na tecnologia em si — estão em segurança de dados, falta de expertise interna e baixa maturidade dos dados corporativos.

O que a pesquisa da Bain revelou

O levantamento foi realizado em julho de 2026 com 140 empresas brasileiras de diferentes portes, com faturamento anual entre R$ 40 milhões e mais de R$ 10 bilhões. A amostra abrange setores como serviços financeiros, bens de consumo, tecnologia, varejo, energia, transporte, saúde, mídia e telecomunicações, conforme descrito pela Bain & Company.

Os principais números são:

  • 95% das empresas já adotam IA — alta de 21 pontos percentuais em relação a 2024;
  • 40% já escalaram ao menos um caso de uso;
  • 62% reportam impacto financeiro direto das iniciativas de IA;
  • 91% afirmam que as iniciativas atenderam ou superaram as expectativas;
  • 86% colocam a IA entre as cinco principais prioridades estratégicas para o próximo ciclo;
  • 62% dos programas são liderados diretamente pelo CEO ou por seus reportes diretos;
  • 98% pretendem ampliar os orçamentos de IA no próximo ciclo.

Para a consultoria, os dados indicam a “passagem definitiva da fase de experimentação para a de geração de valor sustentável”, em que a capacidade de integrar a IA à estratégia central do negócio separa os líderes de mercado das organizações em risco de obsolescência.

Da experimentação à captura de valor: onde as empresas travam

Se quase todas as empresas usam IA e a maioria está satisfeita, por que apenas 4 em cada 10 escalaram um caso de uso? A resposta está nos gargalos relatados pelos executivos.

Os três gargalos: segurança, expertise e dados

As principais barreiras apontadas são a preocupação com segurança e privacidade de dados (29%), a falta de expertise interna (28%) e a baixa maturidade dos dados corporativos (22%). Nenhum dos três se resolve com a compra de uma ferramenta: exigem governança, capacitação e organização da informação.

Essa leitura é reforçada por outros estudos recentes. Pesquisa da SAP com a Oxford Economics, divulgada no SAP NOW AI Tour Brazil 2026 e repercutida pelo Estadão, apontou que 75% das empresas brasileiras veem a qualidade ou a disponibilidade dos dados como fator que impede maior retorno com IA — e que apenas 3% se sentem totalmente preparadas para implantar e ampliar a tecnologia. “O desafio agora é conectar a IA aos dados e aos processos que realmente movem o negócio”, disse Rui Botelho, presidente da SAP Brasil, à reportagem.

O que muda na prática: de chatbots para produtos e vendas

O estudo da Bain também revela uma mudança no tipo de uso. O apoio da IA ao trabalho analítico e intelectual — como elaboração de relatórios, pesquisas e análises de dados — consolidou-se como o uso mais frequente nas linhas de frente, com crescimento de 14 pontos percentuais em um ano.

Ao mesmo tempo, a IA passou a ser incorporada diretamente ao negócio: o uso em produtos atuais cresceu 7 pontos percentuais e o uso em operações de vendas subiu 4 pontos percentuais. Já as interfaces tradicionais de linguagem natural, os chatbots, registraram queda de 11 pontos percentuais — sinal de que a conversa com o cliente está migrando de assistentes genéricos para automações embutidas em produtos e processos.

Nas áreas administrativas, a aceleração foi liderada por TI (avanço de 25 pontos percentuais) e Operações (23 pontos percentuais), seguidas por Atendimento ao Cliente (16 pontos percentuais).

O que pequenas e médias empresas podem aprender com os líderes

É importante fazer uma ressalva metodológica: a amostra da Bain reúne empresas com faturamento a partir de R$ 40 milhões. O 95% não descreve o universo das micro e pequenas empresas. Dados do Cetic.br, o centro de estudos do NIC.br, mostram que o uso de IA nas empresas brasileiras com 10 ou mais pessoas ocupadas ficou em 17% em 2025 — ante 13% em 2024 —, chegando a 50% entre as grandes empresas.

Ainda assim, os fatores que separam líderes dos demais na amostra da Bain servem de roteiro para negócios de qualquer porte.

Três passos para sair da experimentação

1. Coloque a IA na agenda da liderança, não na gaveta da tecnologia. Nas empresas que reportam impacto financeiro, 62% dos programas são liderados pelo CEO ou por seus reportes diretos. A decisão sobre onde a IA entra no negócio é estratégica, e não apenas técnica.

2. Organize os dados antes de comprar a ferramenta. Os três principais gargalos — segurança, expertise e maturidade de dados — têm algo em comum: todos precedem a tecnologia. Uma empresa que não sabe onde estão seus dados de clientes, vendas e operação não consegue extrair valor de nenhum modelo.

3. Concentre esforços em poucos casos de uso com impacto mensurável. A própria Bain resume a lição: “o valor real da IA não vem do gerenciamento de ações dispersas, mas da concentração de recursos em estratégias capazes de alterar a economia do negócio”. Um caso de uso bem executado em vendas ou atendimento rende mais do que dez pilotos paralelos.

Perspectivas: 98% pretendem investir mais

O apetite de investimento segue em expansão: 98% das empresas brasileiras ouvidas pela Bain pretendem aumentar os orçamentos destinados à IA no próximo ciclo. As taxas de aprovação de projetos chegam a 93% no setor administrativo e 89% na área comercial, o que ajuda a explicar a continuidade dos aportes.

Para o mercado como um todo, a mensagem do estudo é direta: à medida que os modelos de IA se tornam acessíveis a todos, a vantagem competitiva deixa de estar na tecnologia e passa a estar na capacidade de cada empresa de incorporar seus dados proprietários e seu conhecimento interno à automação dos processos. Quem tratar IA como mais uma assinatura de software vai ficar para trás; quem tratá-la como reorganização do negócio em torno dos próprios dados terá o que os consultores chamam de vantagem difícil de copiar.


Fontes:

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